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Faz tempo que cientistas, biólogos, arquitetos, designers, professores, pesquisadores, escritores e mais um monte de gente avisa dos descaminhos que a humanidade está trilhando ao lidar com os elementos naturais como meros recursos para seus desejos, sem o olhar sistêmico que este lindo organismo vivo que é a Terra precisa.

Confesso que quando li a primeira vez a pergunta “o que fica nos espaços depois que tiramos o petróleo?” fiquei imaginando um monte de buraco vazio lá embaixo de tudo, prestes a desabar.

James Lovelock, apoiado pelos estudos da bióloga norte-americana Lynn Margulis, em seu trabalho sobre a Teoria de Gaia, deixa claro que somos parte de uma teia intensa de vida, complexa e interdependente. Mas, porque não conseguimos organizar nossas vidas, casas, bairros, cidades, países de acordo com as informações e percepções de autodestruição que se apresentaram ao longo das últimas décadas? Faz tempo que sabemos que a Revolução Industrial trouxe progresso, mas também uma conta alta, como as relações humanas ‘automáticas’ e a hipervalorização do ‘ter bens’ em detrimento do ‘ser quem se é’.

O “conhece-te a ti mesmo”, ressaltado por filósofos e místicos desde que o mundo é mundo, foi substituído pelo slogan “imagem é tudo” e fez com que o ser humano descolasse a atenção de si e passasse a se orientar a partir do olhar externo, seguindo normas e padrões desconexos com sua realidade e com seus verdadeiros anseios. Perdendo a autoconexão, ‘esquecendo’ do ser biológico que somos e das necessidades que precisamos atender para manter nosso equilíbrio, também descuidamos do território que vivemos, perdendo o sentido do lugar que ocupamos.

A saúde passou a ser algo cultivado com exames clínicos e comprimidos, substituindo a boa alimentação por snacks, o ar puro pelo condicionado (olha esse nome!), a energia vital inerente a movimentação de nosso corpo pelo anestesiamento físico com drogas e o anestesiamento mental com o ‘barulho surdo’ da tv.

A busca pela sustentabilidade tem a ver com a tentativa de resgatar a vida “verdadeira” do ser humano, conectada com os movimentos da Natureza que interferem em nosso corpo, no clima de onde vivemos, nos processos que geram o alimento, o ar, a água. Mas este pensamento foi logo usurpado e virou ‘desenvolvimento sustentável’, maquiando a exploração desenfreada e sem mudar a lógica e a ação. Este é o paradigma antigo. Este é o business as usual. Este é o responsável pelo embasamento da nossa visão de mundo, que não nos deixa sentir e enxergar a realidade, que nos distrai o tempo todo com cores brilhantes dos ecrans e músicas chicletes, nos fazendo acreditar em um mundo de faz de conta tecnológico e, o pior de tudo (presta bastante atenção agora): nos fazendo acreditar que não temos capacidade para construir e realizar o que realmente queremos; que não somos capazes de compreender nossas limitações mútuas e, ainda assim, dialogarmos e vivermos o dia-a-dia em harmonia. Não aceitar estas condições é viver no Novo Paradigma. Seja [email protected]!

A regeneração começa exatamente aqui: reestabelecermos as relações transparentes e sinceras, principalmente conosco mesmo. Perceber quem realmente sou e assumir minhas diossincrazias, meus autoritarismos, meus talentos, meus desejos. A partir daí, a partir desse território que conheço e controlo, poder explorar e aprofundar as conexões com outros seres humanos, animais, vegetais, minerais, e transcender.

A regeneração econômica precisa começar pela regeneração das relações humanas para que as trocas e os fluxos sejam coerentes, consistentes e equilibrados. Se não sei minha necessidade, como posso pegar isto do mundo? Pegarei muito? Pegarei pouco? Estou avaliando todas as consequências das minhas escolhas?

“Solo saudável, plantas saudáveis, pessoas saudáveis”, já dizia Ana Primavesi. Quando foi que perdemos nossa saúde? Regenerar o solo é regenerar a vida humana.

Estamos diante de uma escolha.

Isabel Valle, publisher da Bambual Editora

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