Texto integrante do livro “Esperança Ativa“, de Joanna Macy e Chris Johnstone, que está em campanha de financiamento coletivo em benfeitoria.com/esperancaativa – participe e receba seu exemplar!
Ele ainda está em revisão, portanto, contamos com sua compreensão, caso tenham correções a serem feitas no texto.

INTRODUÇÃO

“Perigosas”, “assustadoras”, “fora de controle” – enquanto percorremos a sala, as pessoas estão expressando a palavra ou a frase que vem à mente quando completam a sentença: “Quando penso sobre a condição do nosso mundo, acho que as coisas estão ficando…”. Nas últimas décadas, fizemos esse processo com dezenas de milhares de pessoas em uma ampla série de contextos. Nas respostas que ouvimos ecoam descobertas de pesquisas que mostram altos níveis de inquietação quanto ao futuro para o qual estamos indo.

Essa ansiedade generalizada é bem fundamentada. Nosso mundo aquece, os desertos se expandem e eventos climáticos extremos se tornam mais comuns. A população e o consumo humano estão aumentando ao mesmo tempo que recursos essenciais, como água doce, estoques pesqueiros, solo arável e reservas de petróleo estão em declínio. Enquanto as inversões na economia deixaram muitas pessoas desesperadas sobre como isso será administrado, trilhões de dólares são gastos para gerar guerras. Dadas essas adversidades, não é nenhuma surpresa experienciarmos uma profunda falta de confiança no futuro. Não podemos mais garantir que os recursos dos quais somos dependentes – comida, combustível e água potável – estarão disponíveis. Não podemos mais garantir, até mesmo, que nossa civilização sobreviverá ou que as condições em nosso planeta permanecerão favoráveis para formas complexas de vida. 

Começamos nomeando essa incerteza como uma realidade psicológica do nosso tempo. No entanto, como geralmente achamos deprimente demais falar disso, a tendência é que isso fique oculto em nossas mentes. Às vezes, estamos conscientes disso. Nós apenas não mencionamos. Esse bloqueio da comunicação gera um risco ainda mais mortal, pois o maior perigo de nossos tempos é o enfraquecimento da nossa resposta. 

Muitas vezes ouvimos comentários como “Não diga isso, é muito deprimente” e “Não foque no negativo”. O problema com essa abordagem é que ela fecha as nossas conversas e o nosso pensamento. Como podemos começar a enfrentar a confusão em que estamos se considerarmos deprimente demais pensar nela? 

No entanto, quando enfrentamos a confusão, quando deixamos entrar as terríveis notícias das várias tragédias que se desdobram em nosso mundo, isso pode parecer insuportável. Podemos nos questionar se é possível fazer algo sobre isso de qualquer forma.

Então, é aí que começamos: reconhecendo que nossos tempos nos confrontam com realidades que são dolorosas de enfrentar, difíceis de aceitar e confusas de se conviver. Nossa abordagem é ver isso como o ponto de partida de uma jornada incrível que nos fortalece e aprofunda nossa vivacidade. O propósito dessa jornada é encontrar, oferecer e receber o presente da Esperança Ativa.


O QUE É ESPERANÇA ATIVA?

Seja qual for a situação que enfrentamos, podemos escolher nossa resposta. Quando enfrentamos desafios esmagadores, provavelmente podemos sentir que nossas ações não contam muito. No entanto, o tipo de respostas que damos a eles e o quanto acreditamos que elas fazem diferença são moldadas pelo modo como pensamos e sentimos sobre a esperança. Aqui vai um exemplo:

Jane se importava profundamente com o mundo e estava horrorizada com o que via acontecer. Ela considerava os seres humanos como uma causa perdida, tão presos em seus hábitos destrutivos, e por isso ela via a completa destruição de nosso mundo como algo inevitável. “Qual é o sentido de fazer qualquer coisa se isso não muda a trajetória que estamos tomando?”, ela perguntou.

A palavra esperança tem dois significados diferentes. O primeiro envolve ter esperança, onde o nosso resultado preferido parece razoavelmente provável de acontecer. Se precisarmos desse tipo de esperança antes de nos comprometermos com uma ação, nossa resposta ficará bloqueada por avaliarmos que nossas chances não são muito altas. Foi o que aconteceu com Jane – ela se sentiu tão sem esperança que não via motivo nem mesmo de tentar fazer alguma coisa.

O segundo significado é sobre o desejo. Quando perguntaram a Jane o que ela gostaria que acontecesse em nosso mundo, sem hesitar, ela descreveu o futuro que ela esperava, o tipo de mundo pelo qual ela “ansiava tanto que chegava a doer”. É esse tipo de esperança que inicia nossa jornada – sabendo o que esperamos e o que gostaríamos, ou amaríamos, que acontecesse. É o que fazemos com essa esperança que realmente faz a diferença. A esperança passiva é esperar que agentes externos façam o que desejamos. Esperança Ativa é sobre tornar-nos participantes, sermos atuantes e promotores do que almejamos.

Esperança Ativa é uma prática. Como o tai chi ou a jardinagem, é algo que fazemos em vez de algo que temos. É um processo que podemos aplicar a qualquer situação e envolve três etapas principais. Primeiro, temos uma visão clara da realidade; segundo, identificamos qual rumo desejamos que as coisas tomem e quais valores gostaríamos de ver expressos; e terceiro, damos passos para movermos a nós mesmos ou a nossa situação nessa direção.

Como a Esperança Ativa não exige nosso otimismo, podemos aplicá-la mesmo em áreas que nos sintamos sem esperança. O ímpeto orientador é a intenção; nós escolhemos o que pretendemos provocar, agir ou expressar. Ao invés de mensurar nossas chances e prosseguir apenas quando nos sentimos esperançosos, nos concentramos em nossa intenção e deixamos que ela seja nosso guia.


O PRESENTE É IGUALMENTE DADO
E RECEBIDO

A maioria dos livros que tratam de temas globais foca em descrever os problemas que enfrentamos ou as soluções necessárias. Embora abordemos esses dois aspectos, nosso foco está em como fortalecemos e apoiamos nossa intenção de agir, para que possamos desempenhar melhor nosso papel, seja ele qual for, na cura de nosso mundo.

Como cada um de nós olha a partir de um canto diferente do planeta e traz consigo um histórico de interesses, habilidades e experiências particulares, somos tocados por diferentes preocupações e chamados a responder de maneiras únicas. A contribuição que cada um de nós faz para a cura de nosso mundo é nosso presente de Esperança Ativa. O objetivo deste livro é fortalecer nossa capacidade de oferecer o melhor presente possível: nossa melhor resposta à crise multifacetada que vivemos.

Quando tomamos conhecimento de alguma emergência e nos aproximamos da circunstância, algo poderoso é ativado dentro de nós. Ativamos nosso senso de propósito e descobrimos forças que nem sabíamos que tínhamos. Ser capaz de fazer a diferença é poderosamente animador: faz nossas vidas parecerem mais valiosas. Portanto, quando praticamos a Esperança Ativa, não apenas doamos, mas também recebemos de muitas formas. A abordagem que descrevemos neste livro não se trata de ser obediente ou digno, mas de entrar em um estado de vivacidade que torna nossa vida profundamente satisfatória.


TRÊS HISTÓRIAS DO NOSSO TEMPO

Em qualquer grande aventura, sempre há obstáculos no caminho. A primeira dificuldade é apenas estar ciente de que nós, como civilização e espécie, estamos enfrentando um momento crítico. Quando olhamos para a sociedade convencional e as prioridades expressas ou objetivos perseguidos, é difícil ver muitas evidências dessa conscientização. No primeiro capítulo, tentamos entender a enorme lacuna entre a escala da emergência e o tamanho da resposta descrevendo como nossas percepções são moldadas pela história com a qual nos identificamos. Descrevemos três histórias ou versões da realidade, cada uma atuando como uma lente através da qual vemos e entendemos o que está acontecendo.

Na primeira delas, os Negócios Convencionais (Business as Usual), a suposição definidora é que há pouca necessidade de mudar a maneira como vivemos. O crescimento econômico é considerado essencial para a prosperidade e o enredo central é sobre progredir. A segunda história, o Grande Desmoronamento, chama a atenção para os desastres aos quais os Negócios Habituais estão nos levando, bem como para aqueles que já provocaram. É uma consideração, baseada em evidências, do colapso dos sistemas ecológicos e sociais, da perturbação do clima, do esgotamento de recursos e da extinção em massa de espécies.

A terceira história é sustentada e incorporada por aqueles que sabem que a primeira história está nos levando à catástrofe e se recusam a deixar que a segunda história tenha a última palavra. Envolvendo o surgimento de respostas humanas novas e criativas, trata-se da transição histórica de uma sociedade industrial comprometida com o crescimento econômico para uma sociedade que sustenta a vida, comprometida com a cura e recuperação do nosso mundo. Chamamos essa história de a Grande Virada. O ponto central é encontrar e oferecer nosso presente de Esperança Ativa.

Não faz sentido discutir sobre qual dessas histórias está “certa”. Todas as três estão acontecendo. A questão é em qual queremos colocar nossa energia. O primeiro capítulo é sobre olhar onde estamos e escolher a história que queremos que nossas vidas expressem. O restante do livro se concentra em como fortalecemos nossa capacidade de contribuir para a Grande Virada da melhor forma que pudermos.


A ESPIRAL DO TRABALHO QUE RECONECTA

A jornada que começa no capítulo 2, e que continua ao longo do livro, é baseada em um processo de empoderamento que há décadas oferecemos em oficinas. Inicialmente desenvolvido por Joanna no final da década de 1970, evoluiu e se espalhou, com a contribuição vital de um número crescente de colegas. Ele tem sido usado em todos os continentes, exceto na Antártida. Foi conduzido em muitos idiomas diferentes e envolveu centenas de milhares de pessoas com distintas crenças, origens e faixas etárias. Como essa abordagem nos ajuda a restaurar nosso senso de conexão com a Teia da Vida e uns com os outros, é conhecida como Trabalho Que Reconecta.3 Ao nos ajudar a desenvolver nossos recursos internos e nossa comunidade externa, fortalece nossa capacidade de encarar informações perturbadoras e responder com uma inesperada resiliência. Durante a realização deste trabalho, vimos várias vezes a energia e o comprometimento sendo mobilizados à medida que as pessoas assumem seu papel na Grande Virada.

Escrevemos este livro para que você possa experimentar o poder transformador do Trabalho Que Reconecta e utilizá-lo para expandir sua capacidade de responder criativamente às crises de nosso tempo. Os seguintes capítulos guiarão você pelos quatro estágios da espiral em que ele se move: Partindo com Gratidão; Honrando Nossa Dor pelo Mundo; Vendo com Novos Olhos; e Seguindo Adiante. A jornada por esses estágios tem um efeito fortalecedor que se aprofunda a cada repetição.

Embora possamos colher abundantes recompensas enquanto viajamos sozinhos, com companhia, durante o Trabalho Que Reconecta, os benefícios crescem rapidamente. Incentivamos você a procurar outras pessoas com quem ler este livro ou compartilhar anotações ao longo do caminho. Trazer à tona nossas preocupações é uma parte essencial para enfrentarmos a confusão em que estamos, embora, por razões que vamos explorar, o medo muitas vezes impeça esse tipo de compartilhamento. Examinaremos o que torna tão difícil falar sobre nossa crise planetária e forneceremos ferramentas que ajudarão a ter as conversas fortalecedoras que nossos tempos exigem.

Incentivamos você a familiarizar-se com as ferramentas que descrevemos, testando-as. Espalhadas por todo o livro, estão as caixas “Experimente”, convidando você a provar práticas que consideramos valiosas, tanto para uso pessoal quanto em grupo.


O QUE TRAZEMOS

No coração deste livro está um modelo colaborativo de poder, baseado na apreciação de como podemos conseguir mais ao trabalharmos juntos ao invés de indivíduos separados. A história de nossa co-autoria é um bom exemplo. A ideia semente germinou de uma conversa sobre as lições que aprendemos com nossa experiência no Trabalho Que Reconecta. O que nos surpreendeu e empolgou foi a frequência com que, nas muitas horas que se seguiram, surgiram insights que nenhum de nós havia tido antes. Embora a estrutura principal, os conceitos e as práticas do Trabalho Que Reconecta já estejam bem testadas, nós fomos capazes de enriquecer, aperfeiçoar e acrescentar mais conteúdo, reunindo uma grande quantidade de material que não havia sido publicado ainda.

Há um velho ditado que diz que “dois olhos são melhores que um”, uma vez que de duas perspectivas diferentes é que vem a profundidade da visão tridimensional. Como co-autores, viemos de origens diferentes, vivemos em continentes diferentes e bebemos de fontes diferentes, o que contribuiu para toda a sinergia rica que experimentamos e que é expressa através de nosso texto.

Joanna é estudiosa do budismo, da teoria geral de sistemas e da ecologia profunda. Ela lecionou em várias universidades nos Estados Unidos e viajou pelo mundo, oferecendo treinamentos para inspirar e fortalecer nossas respostas à crise planetária. Atualmente, no início dos seus noventa anos, ela vive em Berkeley, Califórnia. Ela é ativista há mais de cinco décadas; é uma voz respeitada nos movimentos pela paz, justiça e ecologia; já escreveu ou é co-autora de dezenas de livros, os quais a maioria foi traduzida para outros idiomas.

Chris é um médico especialista em psicologia da mudança de comportamento, resiliência e recuperação da dependência. Mora no Reino Unido, trabalha como instrutor, treina profissionais de saúde em medicina comportamental e foi pioneiro no papel do treinamento de resiliência na promoção da saúde mental positiva. Ativista desde a adolescência, e agora com quase sessenta anos, ele ensina e escreve sobre psicologia da sustentabilidade há mais de vinte anos.

Nós dois nos conhecemos em 1989 em um treinamento de uma semana liderado por Joanna, na Escócia. Chamado de “O Poder da Nossa Ecologia Profunda”, foi um evento divisor de águas para Chris. Trabalhamos juntos muitas vezes desde então. Este livro descreve o trabalho que compartilhamos e apreciamos. Ele é oferecido não como um modelo de solução para nossos problemas, mas como uma fonte de práticas e ideias de onde extrair forças e realizar uma jornada mítica de transformação. Rebecca Solnit escreve:

Uma emergência é a separação de algo familiar, o surgimento de algo repentino em uma nova atmosfera, que muitas vezes demanda que estejamos à altura da ocasião.

Quando enfrentamos a confusão em que estamos, percebemos que os Negócios Habituais não podem continuar. O que nos ajuda a estar à altura dessa ocasião é enraizar nosso viver em algo muito maior que nós mesmos. O poeta Rabindranath Tagore expressou essa ideia com estas palavras:

O mesmo fluxo de vida que corre por minhas veias noite e dia corre pelo mundo.

Esse é o fluxo que estamos seguindo. Ele nos aponta para um modo de vida que enriquece e não exaure nosso mundo. Leva-nos a encontrar nosso presente de Esperança Ativa. Quando encaramos a confusão em que estamos oferecendo ao mundo o nosso presente, nossas vidas também se enriquecem.


Parte Um – A GRANDE VIRADA


Capítulo Um – Três histórias de nosso tempo

“Quando as histórias que uma sociedade conta estão em desarmonia com as suas circunstâncias, elas podem se tornar auto-limitantes, até mesmo uma ameaça à sobrevivência. Esta é a nossa atual situação.” – David Korten, A Grande Virada

Em 7 de maio de 2001, jornalistas se reuniram em uma conferência de imprensa na Casa Branca. Ari Fleischer, assessor de imprensa do presidente Bush, não tinha nada a anunciar naquele dia, mas se abriu às perguntas da multidão ali reunida. O aumento dos gastos com energia rapidamente se tornou o tópico principal, com uma das primeiras perguntas evocando uma forte resposta.

Jornalista: “O presidente acredita que, dado o volume de energia que os Americanos consomem per capita, e o quanto isso excede em relação a qualquer outro cidadão em qualquer outro país no mundo, precisamos corrigir nosso estilo de vida para enfrentar esse problema?”
Sr. Fleischer: “Um grande não. O presidente acredita que isso é um estilo de vida norte-americano, e que deve ser um objetivo dos políticos proteger o estilo de vida norte americano.”

Enquanto os presidentes vêm e vão, o grande não do Senhor Fleischer segue sendo uma força poderosa em nossa sociedade. É a voz que não questiona a forma que vivemos. Esta convicção surge de uma história específica sobre como as coisas são em nosso mundo. Por história, não queremos dizer obra de ficção mas à forma que compreendemos os eventos que vemos acontecendo.

Neste capítulo identificamos três histórias ocorrendo em nossa época, como mencionado na introdução. A primeira assume que nossa sociedade está no caminho certo e que podemos seguir com os business as usual.** A segunda revela as consequências destrutivas do modelo do business as usual e o progressivo desmantelamento de nossos sistemas biológico, ecológico e social. A terceira é sobre a onda de respostas ao perigo e das transições multifacetadas em direção a uma civilização que sustenta a vida. Reconhecer que podemos escolher em qual história vivemos pode ser libertador; encontrar uma boa história para participar fortalece nosso senso de propósito e vivacidade. Nós exploraremos como essas histórias moldam nossas respostas à crise global.

** Optamos por manter a expressão Business as usual no original, por ser assim comumente utilizada. Ela exprime os negócios da velha economia, centrada na repetição infinita da lógica linear (extrai, produz, consome, descarta) e preocupada apenas com o lucro, ou seja, incompatível com sustentabilidade e regeneração.


A PRIMEIRA HISTÓRIA: BUSINESS AS USUAL 

Dos alimentos que você comeu nas últimas vinte e quatro horas, quantos são baseados em ingredientes produzidos a centenas, ou até milhares de quilômetros de distância? Para a maioria de nós que vive em países industrializados, a resposta é muitos deles. A cenoura média, pé de alface, ou uma caixa de morangos vendidos em supermercados em Iowa, por exemplo, é provável que tenham se deslocado mais de dois mil e oitocentos quilômetros. E não apenas nossa comida: muitas das coisas que usamos viajaram vastas distâncias para chegar até nós. Custos de transporte são o principal motivo que torna a nossa era a mais energeticamente cara da história. Ari Fleischer talvez pense nisso como sendo o estilo de vida norte-americano. Mas isso não é apenas norte-americano. De forma crescente, para aqueles vivendo em partes abastadas de nosso mundo, está se tornando a forma moderna, a maneira aceita, que pensamos como sendo normal. 

Essa vida moderna que estamos descrevendo possui muitas atrações. É comum as pessoas passarem as férias em lugares distantes e ter seus próprios carros, computadores, televisões e geladeiras. Há poucas gerações atrás, tais confortos, se alcançáveis, teriam sido vistos como coisas dos super-ricos. Hoje em dia, a publicidade dá a impressão que qualquer um deveria ter essas coisas, e o progresso é medido em termos do quanto a mais temos além do que tínhamos, ou o quanto mais longe e mais rápido podemos ir.

Uma das formas de pensar sobre nosso tempo é que estamos encenando uma história de sucesso maravilhosa. O desenvolvimento econômico e tecnológico tornaram vários aspectos da nossa vida mais fáceis. Se olharmos como avançar daqui para frente, o caminho que esta história sugere é “mais do mesmo, por favor”. Chamamos essa história de Business as Usual.

Essa é a história contada pela maioria dos políticos e líderes corporativos. Suas visões é que as economias podem, e devem, continuar a crescer. Até mesmo diante de crises econômicas e períodos de recessão. O pressuposto dominante é que não durará muito tempo até que as coisas voltem a melhorar. Expressando sua confiança no caminho do crescimento econômico, em Novembro de 2010 o presidente Obama disse, “a única e mais importante coisa que podemos fazer para reduzir nosso endividamento e déficit é crescer.”

Para uma economia de mercado crescer é necessário aumentar as vendas. Isso significa nos encorajar a comprar e consumir, mais do que já fazemos. A publicidade tem um papel chave em estimular o consumo, e de forma crescente, crianças são visadas como uma forma de aumentar o apetite das famílias por produtos. Estimativas sugerem que a criança média Norte-Americana assiste entre vinte e cinco a quarenta mil comerciais de televisão por ano. No Reino Unido, o número está por volta dos dez mil. Assim que crescemos, aprendemos observando os outros. Nossas visões sobre o que é normal e necessário são condicionadas por aquilo que vemos.

Quando você está vivendo no meio desta história, é fácil pensar nisso como sendo apenas como as coisas são. Os jovens podem ser levados a acreditar que não há alternativas além de encontrar seus lugares nesse estado de coisas. Seguir em frente é apresentado como o principal enredo, apoiado por sub enredos baseados em encontrar um parceiro, defender sua família, ter boa aparência, e comprar coisas. Nessa perspectiva de vida, os problemas do mundo são vistos como distantes e irrelevantes para os dramas de nossas vidas pessoais. 

Transmitido pela mídia global, essa história de vida moderna contagia o mundo todo e faz crescer o apetite por consumo. Antes de 1970, apenas quatro itens eram considerados como pertences essenciais na China – uma bicicleta, uma máquina de costura, um relógio de pulso e um rádio. A partir dos anos 80, uma classe consumidora crescente expandiu essa lista incluindo uma geladeira, uma TV colorida, uma máquina de lavar, e um gravador. Uma década depois, se tornou normal para mais e mais pessoas na China terem um carro, um computador, um celular e ar condicionado. E é uma lista que ainda está crescendo, como explica Joe Hatfield, CEO da Walmart Asia:

Nós começamos com um metro e vinte de produtos de cuidados para pele; hoje são seis metros. Hoje não temos desodorantes, mas em algum dia no futuro teremos desodorantes na China. Cinco anos atrás perfumes não eram um grande negócio aqui. Mas, se você olhar, hoje é um mercado emergente… há muito menos bicicletas, então isso diminui o exercício físico, então as pessoas estão ficando mais obesas, então o que isso te diz? As vendas de equipamentos para malhar estão indo bem, roupas esportivas, de corrida e, em certo momento, teremos shakes para emagrecer e todos esses tipos de produtos.

Alguns enxergam isso como progresso.

Quadro 1.1. Alguns dos principais pressupostos da manutenção do status quo
Crescimento econômico é essencial para a prosperidade.
•A Natureza é uma commodity a ser usada para finalidades humanas.
• Promover o consumo é bom para a economia.
• A narrativa central é ter sucesso.
• Os problemas de outras pessoas, nações e espécies não são nossos.

Por que as pessoas de outras partes do mundo não deveriam adotar o estilo de vida considerado normal no Ocidente? E por que não deveríamos seguir com o business as usual do crescimento econômico, com pessoas comprando mais coisas e usando tanta energia (ver Quadro 1.1)? Para responder a estas questões, precisamos olhar o lado obscuro da vida moderna e também para onde isto está nos levando. Isso nos leva à próxima história.


A SEGUNDA HISTÓRIA: O GRANDE DESMORONAMENTO

Em 2010, pesquisas tanto na CBS quanto na Fox News revelaram que uma maioria acredita que as condições para a próxima geração serão piores que as das pessoas vivendo hoje. Dois anos antes, uma pesquisa internacional de mais de 61.600 pessoas, em sessenta países, revelou resultados similares. Com tantas pessoas perdendo a confiança que as coisas estarão bem, está emergindo uma consideração muito diferente dos acontecimentos. Desde que há uma percepção de que nosso mundo está em sério declínio, pegamos um termo usado pelo pensador social David Korten e chamamos essa história de Grande Desmoronamento.

Em nosso trabalho com as pessoas abordando suas preocupações sobre o mundo, ficamos chocados sobre como muitos problemas são alarmantes. A lista no Quadro 1.2 mostra cinco áreas comuns de preocupação, e muito provavelmente você tem outras que adicionaria a esta lista. Encarar esses problemas pode ser desconfortável, até mesmo exaustivo, mas ao invés de alcançar onde queremos chegar, precisamos começar de onde estamos. A história do Grande Desmoronamento mostra um cenário perturbador de onde estamos.

Quadro 1.2. O Grande Desmoronamento do Início do
Século Vinte Um
Declínio econômico.
• Esgotamento de recursos.
• Crise climática.
• Polarização social e guerras.
• Extinção em massa das espécies.


Declínio Econômico

A crise econômica que irrompeu em 2008 presenciou não apenas o colapso das instituições financeiras, mas também o aumento dos preços, desemprego, despejos e protestos por comida em muitas partes do mundo. Apenas alguns anos antes, no começo de 2005, a economia global parecia florescer. Com os preços dos imóveis em alto crescimento nos Estados Unidos, o mercado imobiliário era considerado um investimento “seguro”. Havia potencial de lucro no setor de hipotecas e empréstimos eram dados a rodo, até mesmo àqueles com avaliação de crédito ruins. Porém, essa expansão se tornou uma bolha que estourou. Um economista pode ter visto isso como parte de um ciclo de altos e baixos. Outra frase que usamos para descrever o que aconteceu é excesso e colapso. Aqui está o porquê.

Quando algo vai além do ponto em que pode ser sustentado, chamamos isso de excesso. Para restaurar o equilíbrio, precisamos reconhecer e corrigir tal sobrecarga. Se não fazemos isso, o sistema segue pressionando mais e mais, até alcançar um ponto de pane e colapso. O mercado imobiliário não pode crescer infinitamente; tampouco a economia.

Após anos de crescimento insustentável, a bolha eventualmente estourou no mercado imobiliário dos EUA, e em 2006 e 2007 os preços dos imóveis despencaram. Visto que tantas instituições financeiras investiram na indústria hipotecária, a crise afetou toda a economia. Como uma fileira de dominós, gigantes financeiras colapsaram uma atrás da outra. Governos emprestaram quantias exorbitantes de dinheiro para apoiar instituições em dificuldades que passaram pelo excesso e, então, chegaram ao colapso. Mas, e se todo o sistema econômico está no modo exagerado e revelando agora as consequências?

A bolha do crescimento econômico contínuo depende de uma extração de recursos incessantemente crescente e gera níveis cada vez mais altos de lixo tóxico. Quanto mais pressionamos para além dos limites sustentáveis de ambos, mais evidente fica.

Esgotamento de recursos

Em 1859, quando os primeiros campos de petróleo foram descobertos na Pensilvânia, a população mundial se situava ligeiramente acima de um bilhão de pessoas. Em 1930, havia dobrado, e em 1974, com a crescente produção de comida pela agricultura movida a petróleo, dobrou novamente para 4 bilhões. Nós já estamos a caminho de uma outra duplicação, com a população global passando da marca dos 7 bilhões em 2011. Não é apenas a população que está crescendo; a propagação de estilos de vida modernos, como apresentado acima, amplificou nossas demandas, especialmente por energia.

No século vinte, o consumo global de combustíveis fósseis aumentou em vinte vezes. Petróleo tem sido nosso principal combustível, e estamos agora consumindo mais de 90 milhões de barris por dia. Embora exista um debate sobre a quantidade de petróleo que resta, a continuidade nesse ritmo pode consumir os suprimentos disponíveis dentro de algumas décadas. Os problemas começam muito antes disso; visto que os campos de petróleo serão exauridos, as reservas remanescentes se tornam mais difíceis e mais caras de serem extraídas. O mesmo é verdade para o abastecimento mundial como um todo, isso está subindo os preços do combustível. 

Cada grande aumento no preço do petróleo nos últimos trinta e cinco anos tem sido acompanhado por uma recessão, com o preço do petróleo dobrando em apenas doze meses antes da crise econômica de 2008. Quando os níveis de produção de petróleo ultrapassa sua capacidade máxima e entra em declínio (o estágio chamado de “Pico do Petróleo”), pode ser que não tenha combustível suficiente para atender à demanda. Isso dispararia os preços.

É pouco provável que sejamos resgatados por novas fontes de petróleo; nas últimas três décadas há mais petróleo sendo consumido anualmente do que encontrado em novas reservas. Em 2006, este déficit cresceu para quatro barris consumidos para cada um novo barril encontrado. Embora as novas tecnologias aumentem nossa capacidade de extrair petróleo, muitas das novas reservas descobertas são difíceis de alcançar, como é o caso dos poços em águas profundas (mais de um quilômetro abaixo da superfície do oceano), ou são de qualidade muito inferior, como é o caso das areias betuminosas no Canadá.

Nosso uso extensivo de petróleo é o principal contribuinte para as mudanças climáticas. Confiar tanto em petróleo quando os suprimentos futuros são incertos, nos coloca em risco adicional. Se não tratarmos essa questão, estaremos rumo ao colapso.

Ainda mais crucial à vida em nosso planeta, a disponibilidade de água doce está também em declínio. Um relatório recente das Nações Unidas alerta que dentro de vinte anos, cerca de dois terços da população global poderá estar sob risco de falta d’água. Industrialização, irrigação, crescimento populacional, e a vida moderna tem aumentado dramaticamente nosso consumo de água, aumentando em seis vezes durante o século vinte. A mudança climática também tem sido um fator, com mais chuvas em algumas partes do mundo porém muito menos em outras. Desde 1970, secas severas aumentaram, e a proporção da superfície terrestre da Terra que sofre condições muito secas aumentou de 15% para 30%.

Crise climática

Quando mais pessoas consomem mais coisas, nós não apenas esgotamos os recursos, mas também produzimos mais resíduos. O resíduo gerado anualmente nos Estados Unidos poderia encher um comboio de caminhões suficiente para dar a volta ao mundo seis vezes. Nem todo o resíduo é tão visível: a cada ano, o Europeu médio lança 8.1 toneladas de dióxido de carbono na atmosfera; o Norte Americano médio, mais que o dobro disso. Enquanto que esse gás de efeito estufa é invisível, seus efeitos não são. A mudança climática não é mais apenas uma ameaça distante às futuras gerações: chegou de uma forma mensurável e destrutiva.

Na época, a década de 1980 foi a década mais quente já registrada. Os anos 90 foram ainda mais quentes e os anos 2000 ainda mais quentes. Enquanto o aquecimento global continua, os anos desde 2010 incluíram os mais quentes já registrados.  Ligados a esse aquecimento, os desastres relacionados ao clima (incluindo inundações, secas, ondas de calor, incêndios e tempestades severas) aumentaram dramaticamente.

Visto que o aquecimento faz com que a água evapore mais rápido, o solo está secando tanto em algumas partes do mundo que as colheitas estão fragilizadas e incêndios florestais estão se tornando mais intensos. No Brasil, as secas em 2005 foram consideradas um evento único no século. Ainda assim as secas que se seguiram em 2010 foram ainda piores. No estado de Washington, houveram mais perdas de florestas por queimadas nos últimos dez anos do que as três décadas antecedentes combinadas.

Ao mesmo tempo, ventos mais quentes levam mais água dos oceanos, fazendo com que outras áreas sofram um aumento de enchentes e eventos com chuvas torrenciais. Ronald Neilson, professor de bioclimatologia da Universidade do Estado de Oregon, explica: “Enquanto o planeta esquenta, mais água está sendo evaporada dos oceanos e toda aquela água tem que cair em algum lugar como precipitação.”

Em Bangladesh, houve precipitação de quatorze polegadas de chuva em um único dia em 2004, contribuindo com as enchentes que deixaram 10 milhões de desabrigados e grande parte das colheitas destruídas. As enchentes no Paquistão em 2010 colocaram um quinto do país debaixo d’água, deslocando 20 milhões de pessoas.

A maioria das grandes cidades do mundo se desenvolveram como portos à beira do mar ou de grandes rios, e mais de 630 milhões de pessoas vivem menos do que trinta e três pés acima do nível do mar. Se as geleiras na Groenlândia e Oeste da Antártida continuarem derretendo, a subida dos níveis de água inundará Londres, Nova Iorque, Miami, Mumbai, Calcutá, Sidnei, Xangai, Jacarta, Tóquio, e muitas outras grandes cidades. O derretimento das geleiras também é relevante pois as superfícies do solo e do mar absorvem mais calor do sol do que as superfícies de gelo. Isso cria um ciclo vicioso (ver quadro 1.3), onde quanto mais as geleiras derretem, menos refletirá o calor do sol e mais quente ficará, levando a mais derretimento das geleiras.

As florestas desempenham um papel protetor ao absorver o dióxido de carbono, porém como as florestas estão sendo derrubadas, perdemos esse processo crucial. Árvores tropicais estão também em risco, pois quando o ar mais quente seca o solo após um certo ponto, o solo não pode mais sustentar as árvores de grande porte. Um aumento na temperatura global de 4ºC seria o suficiente para matar a maior parte da Floresta Amazônica. Se isso acontecer, não apenas perderíamos o efeito de resfriamento das florestas, mas os gases de efeito estufa emitidos pela decomposição ou queimadas das árvores aumentaria ainda mais o aquecimento, estabelecendo outro ciclo vicioso. O termo mudança climática desenfreada é usado para descrever essa situação perigosa, onde as consequências do aquecimento causa ainda mais aquecimento (ver Quadro 1.3). O Professor Kevin Anderson, do Centro Tyndall para Mudanças Climáticas, adverte sobre a catástrofe:

Para a humanidade, é uma questão de vida ou morte… é extremamente improvável que não tenhamos mortes em massa a 4ºC. Se você tem uma população de 9 bilhões em 2050 e alcançou um aumento de 4ºC, 5ºC ou 6ºC, talvez você tenha meio bilhão sobrevivendo.


Divisão Social e Guerra

No momento, os pobres em nosso mundo estão arcando com as consequências do Grande Desmoronamento. Assim que os preços do petróleo subiram, os custos da comida dispararam. O preço global dos alimentos mais do que dobrou entre fevereiro de 2001 e fevereiro de 2011, pressionando mais e mais pessoas para a linha da pobreza. Em 2010 mais de 900 milhões de pessoas sofreram de fome crônica. Enquanto isso, os 20% mais ricos de nossa população mundial (isso é, qualquer um capaz de gastar mais de $10 por dia) recebem três-quartos de toda a renda.

Enquanto alguns argumentam que o crescimento econômico é necessário para combater a pobreza, a riqueza flui muito mais para os ricos do que para os pobres enquanto a economia cresce. O número de milionários e bilionários aumentou, enquanto quase metade da população ainda vive com menos de $2.50 por dia. Até mesmo nos países ricos, a lacuna entre os ricos e pobres tem aumentado. Vinte e cinco anos atrás, 1 por cento dos mais ricos nos Estados Unidos embolsou 12 por cento da receita nacional e possuía 33 por cento da riqueza. Em 2011 acumularam quase um quarto da receita e possuíam 40 por cento da riqueza. Estudos mostram que quanto mais economicamente dividida uma sociedade fica, mais caem os níveis de confiança, o crime aumenta, e as comunidades colapsam.

O Projeto Milênio da ONU estima que a pobreza extrema e a fome mundial poderia ser eliminada em 2025 por um custo de aproximadamente $160 bilhões anuais. O gasto militar mundial em 2010 foi dez vezes esse montante, com o governo dos Estados Unidos gastando quase tanto quanto todos os outros países no mundo juntos. O desmoronamento do nosso mundo vem, em parte, de buscar segurança através do combate a inimigos ao invés de encarar as ameaças apresentadas que aprofundam as desigualdades, esgotamento de recursos e a mudança climática.


Extinção em massa das espécies

Com a poluição crescente, destruição do habitat e os distúrbios causados pela crise climática, o prejuízo para a vida selvagem tem sido enorme. Um terço de todos os anfíbios, ao menos um quinto de todos os mamíferos, e um oitavo de todas as espécies de pássaros estão agora ameaçados pela extinção. “As perspectivas mundiais da biodiversidade”, um relatório da ONU, concluiu: 

Com efeito, nós atualmente somos responsáveis pela sexta maior extinção na história da Terra, e a maior desde que os dinossauros desapareceram, há 65 milhões de anos atrás.

Algumas espécies desempenham papéis críticos no funcionamento dos sistemas naturais: dependemos deles para sobrevivermos. O plâncton microscópico nos oceanos, por exemplo, é a comida pela qual os peixes dependem; esses plânctons também produzem grande parte do oxigênio que respiramos. Quando o dióxido de carbono da queima de combustíveis fósseis é absorvido pelos oceanos, a água marinha se torna mais ácida, prejudicando os plânctons. A combinação entre a acidez nos oceanos e aquecimento da água já trouxe uma redução dramática na população global de plânctons. Se esse declínio seguir, não sabemos até que ponto acarretará em consequências catastróficas – tais como o colapso da vida dos peixes ou uma redução substancial no oxigênio disponível para nós.


A realidade dupla

As histórias Business as Usual o Grande Desmoronamento oferecem percepções fortemente contrastantes sobre o estado do nosso mundo. Elas são duas realidades diferentes que coexistem no mesmo tempo e espaço. Você provavelmente conhece pessoas que vivem uma história diferente da sua. Você mesmo pode estar se movendo entre várias histórias. É possível passar uma parte de um dia em seu próprio modo business as usual, fazendo planos para um futuro que assumimos que será tão parecido quanto hoje. Então algo desperta uma consciência da confusão que estamos, e reconhecemos em nossos corações e mentes o colapso que está adiante.

Para um número crescente de pessoas, o colapso já chegou: casas submersas após tempestades extremas, fazendas abandonadas por conta da seca prolongada, abastecimento de água contaminados e não-potáveis, empregos e poupança perdidos. A realidade convencional do Business as Usual está crescentemente se tornando interrompida pelas más notícias do Grande Desmoronamento.

Em um primeiro momento, quando nos tornamos conscientes da tragédia de nossa situação, isto pode vir como um grande choque. Grande parte desses problemas são ignorados pela mídia em geral, sua cobertura é restrita a ocasionais documentários ou publicações periféricas. O olhar da imprensa moderna, particularmente no mundo Ocidental, é mais focado em fofocar sobre celebridades. Vivemos, como Al Gore coloca, em uma cultura de distração.

Quando essas questões vem pra conversa, elas são geralmente acompanhadas por um silêncio estranho. Duas diferentes visões comumente bloqueiam o fluxo de palavras. A primeira descarta o problema como algo exagerado. A segunda perspectiva habita inteiramente o Grande Desmoronamento. Essa visão vê o declínio contínuo como sendo tão inevitável que não vale a pena conversar a respeito. Existe uma aceitação resignada que as coisas foram longe demais, que não podemos fazer nada a respeito, que entramos em um ponto sem retorno.

A expressão “as coisas foram longe demais” é outra forma de dizer que estamos acima do limite. É tarde demais para prevenir a ameaça já causada ou evitar aspectos do colapso já em curso. A pesca excessiva já tem levado a um colapso devastador de muitos pesqueiros do mundo. A mudança climática já provocou um aumento em eventos climáticos extremos por todo o mundo. Alguns países produtores de petróleo (incluindo Noruega e Reino Unido) já ultrapassaram seu pico de produção, que agora está em declínio. Essas coisas já aconteceram. Mas podemos aprender com elas e escolher para onde vamos a partir daqui. Nesse estudo detalhado da extrapolação global de nossa economia materialista, os cientistas ambientais Donnella Meadows, Jørgen Randers, e Dennis Meadows escrevem:

A extrapolação dos limites pode levar a duas diferentes consequências: uma é acontecer algum tipo de colapso; outra é uma reviravolta deliberada, uma correção, uma atenuação cuidadosa… Acreditamos que uma correção é possível e que isso poderia nos levar a um futuro desejável, sustentável, suficiente para todas as pessoas do mundo. Também acreditamos que se uma profunda correção não é feita logo, um colapso de algum tipo é certo. E ocorrerá durante as vidas de muitos que estão vivos hoje.

A história dos Business as Usual está nos colocando em rota de colisão com o desastre. E por si mesmo, o Grande Desmoronamento pode soar como sendo uma grande história de terror que sobrecarrega e frustra, nos paralisando. Felizmente há uma terceira história, a qual está se tornando cada vez mais visível. Você é provavelmente parte dela.


A TERCEIRA HISTÓRIA: A GRANDE VIRADA

Na Revolução Agrícola de 10 mil anos atrás, a domesticação de plantas e animais levou a uma mudança radical no modo de vida das pessoas. Na Revolução Industrial, que começou há uns cem anos, uma transição dramática similar aconteceu. Nos dois casos, não se trata apenas de mudanças em pequenos detalhes da vida. Toda a base da sociedade foi transformada, incluindo a relação das pessoas entre si e com a Terra.

Neste momento, uma mudança de escopo e magnitude comparáveis está acontecendo. Ela foi chamada de Revolução Ecológica, Revolução da Sustentabilidade, até mesmo de Revolução Necessária. Esta é nossa terceira história: nós a chamamos de a Grande Virada e a vemos como a aventura essencial do nosso tempo. Ela envolve a transição de uma já condenada economia de crescimento industrial para uma sociedade sustentável, comprometida com a recuperação do mundo. Essa transição já está bem encaminhada.

Nos primeiros estágios de grandes transições, a atividade inicial parece existir somente na superfície. Contudo, quando chega sua hora, ideias e comportamentos se tornam contagiosos: quanto mais as pessoas transmitem perspectivas inspiradoras, mais essas perspectivas se popularizam. Em um determinado ponto, a balança inclina e alcançamos massa crítica. Pontos de vista e práticas antes marginais, tornam-se a corrente dominante.

Na história da Grande Virada, o que está se popularizando é o compromisso de agir em prol da vida na Terra, bem como a visão, a coragem e a solidariedade para fazê-lo. Inovações técnicas e sociais convergem, mobilizando energia, atenção, criatividade e determinação das pessoas, o que Paul Hawken define como “o maior movimento social da história”. No seu livro Blessed Unrest, ele escreve: “Eu logo percebi que minha estimativa inicial de 100 mil organizações estava errada em pelo menos dez vezes, e agora acredito que há mais de 1 milhão – e talvez até 2 milhões – de organizações trabalhando para a sustentabilidade ecológica e a justiça social”.

Não fique surpreso se você não leu sobre essa transição épica em um jornal de grande circulação nem viu isso relatado na grande mídia – os grandes veículos de comunicação estão treinados para focar em eventos repentinos e isolados, para onde possam apontar suas câmeras. As mudanças culturais acontecem em um nível diferente; elas são vistas somente quando nos distanciamos o suficiente para ver o quadro completo mudando ao longo do tempo.

Uma fotografia de jornal vista por uma lente de aumento pode mostrar apenas pequenos pontos. Quando parece que nossa vida e nossas escolhas são como esses pontos, pode ser difícil reconhecer sua contribuição para o grande quadro de mudança. Precisaremos treinar para ver o padrão maior e para reconhecer como a história da Grande Virada está acontecendo em nosso tempo. Uma vez vista, ela se torna mais fácil de ser reconhecida. Assim, quando damos um nome a ela, essa história se torna mais real e familiar para nós.

Para apoiar você a entender as maneiras pelas quais pode ser parte dessa história, identificamos três dimensões da Grande Virada. Elas são igualmente necessárias e se reforçam mutuamente. Por conveniência, nós as rotulamos como primeira, segunda e terceira dimensões, mas isso não é para sugerir nenhuma sequência de ordem ou importância. Podemos começar por qualquer uma delas. Cabe a cada um seguir seu senso de retidão sobre onde nos sentimos compelidos a agir.


A primeira dimensão: ações defensivas

Ações defensivas têm o objetivo de retardar o estrago causado pela política econômica dos negócios convencionais. A meta é proteger o que sobrou dos nossos sistemas naturais com vida sustentável, resgatando o que podemos da nossa biodiversidade, assim como de ar puro, água, florestas e solo. As ações defensivas também interrompem a desestruturação social, cuidando dos que sofreram danos e protegendo as comunidades contra exploração, guerra, fome e injustiça. Essas ações defendem nossa existência compartilhada e a integridade da vida em nosso lar planetário.

Essa dimensão inclui aumentar a conscientização do estrago que foi feito, juntando evidências e documentando os impactos sociais, no meio ambiente e na saúde, causados pelo crescimento industrial. Precisamos do trabalho de cientistas, ativistas e jornalistas que revelem as relações entre a poluição e o aumento do câncer infantil, o consumo de combustíveis fósseis e os distúrbios climáticos, a disponibilidade de produtos baratos e a exploração dos trabalhadores. A menos que essas conexões sejam feitas de forma nítida, é muito fácil continuar inconscientemente contribuindo para destruir o mundo. Tornamo-nos parte da história da Grande Virada quando elevamos nossa conscientização, procuramos aprender mais e alertamos os outros sobre os problemas que enfrentamos.

Existem muitas maneiras de agir. Podemos escolher retirar nosso apoio a comportamentos e produtos que causam problemas. Junto com outras pessoas, podemos unir forças em campanhas, petições, boicotes, comícios, processos legais, ações diretas e outras formas de protesto contra as práticas que ameaçam nosso mundo. Se as ações defensivas podem ser frustrantes quando nos vemos diante de um progresso lento ou de uma derrota, elas também levam a importantes vitórias. Áreas de florestas primárias no Canadá, nos Estados Unidos, na Polônia e na Austrália, por exemplo, são protegidas por um ativismo determinado e contínuo.

As ações defensivas são essenciais; elas salvam vidas, espécies, ecossistemas e um pouco do patrimônio genético para gerações futuras. Mas, isoladas, elas não são suficientes para a Grande Virada acontecer. Para cada hectare de floresta protegida, muitos outros são perdidos para a exploração ou o desmatamento. Para cada espécie que livramos da iminência do desaparecimento, outras são extintas. Apesar de sua importância, confiar apenas nos protestos como único caminho de mudança pode nos deixar cansados da batalha e desiludidos. Além de interromper o dano, precisamos substituir ou transformar os sistemas que o causaram. Esse é o trabalho da segunda dimensão.


A segunda dimensão: práticas e sistemas com vidas
sustentáveis

Se você procurar, achará evidências de que nossa civilização está sendo reinventada. Enfoques, anteriormente aceitos e reconhecidos, em relação a sistemas de saúde, negócios, educação, agricultura, transporte, comunicação, psicologia, economia e muitas outras áreas estão sendo questionados e transformados. Essa é a segunda vertente da Grande Virada e envolve repensar a maneira como fazemos as coisas, assim como redesenhar de modo criativo as estruturas e os sistemas que compõem nossa sociedade.

A crise financeira de 2008 fez com que muitos começassem a questioner nosso sistema bancário. Em uma pesquisa realizada recentemente, mais de metade dos entrevistados disseram que sua maior preocupação eram as taxas de juros, mas agora também consideravam outros fatores, como onde o dinheiro estava sendo investido e para quê. Junto a essa mudança de pensamento, novos tipos de bancos, como o Triodos Bank, estão redefinindo as regras financeiras, operando no modelo de “retorno triplo”. Nesse modelo, os investimentos não trazem só o retorno financeiro, mas também benefícios sociais e ambientais. Quanto mais as pessoas colocam suas economias nesse tipo de investimento, mais fundos ficam disponíveis para empreendimentos que visam um benefício maior, não apenas fazer dinheiro. Isso, por sua vez, estimula o desenvolvimento de um novo setor econômico, baseado no tripe da sustentabilidade. Esses investimentos provaram ser extraordinariamente estáveis em tempos de turbulência econômica, colocando os bancos éticos em uma forte posição financeira.

Uma área que se beneficia desses investimentos é o setor agrícola, que tem visto uma mudança a favor das práticas sociais e do meio ambiente. Preocupados com os efeitos tóxicos de pesticidas e de outras químicas usadas na agricultura industrial, muitas pessoas começaram a consumir produtos orgânicos. As iniciativas de feiras livres melhoram as condições de trabalho dos produtores, enquanto a Community Supported Agriculture (CSA) e os mercados agrícolas reduzem a distância que se leva para transportar o alimento, aumentando a disponibilidade da produção local. Nessas e em outras áreas, fortes sinais de recuperação estão surgindo, enquanto novos sistemas organizacionais crescem a partir da pergunta visionária: “Existe uma maneira melhor de fazer as coisas, uma maneira que traga benefícios em vez de causar danos?”. Em algumas áreas, como da construção sustentável, concepções de design que eram consideradas marginais alguns anos atrás são largamente aceitas hoje em dia.

Quando apoiamos e participamos dessas linhas de atuação que fazem emergir uma cultura sustentável, nos tornamos parte da Grande Virada. Por nossas escolhas em como viajar, onde comprar, o que comprar e como poupar, modelamos o desenvolvimento dessa nova economia. Empreendimentos sociais, projetos de microgeradores de energia, comunidades de ensino, agricultura sustentável e sistemas financeiros éticos contribuem para a rica colcha de retalhos de uma sociedade sustentável. Isolados, no entanto, eles não são suficientes. Essas novas estruturas não vão criar raízes e sobreviver sem valores profundos arraigados para sustentá-las. Esse é o trabalho da terceira dimensão da Grande Virada.


A terceira dimensão: mudança na consciência

O que inspira as pessoas a embarcarem em projetos ou a apoiar campanhas que não trazem um benefício pessoal imediato? No núcleo da nossa consciência está uma fonte de cuidado e compaixão; esse aspecto de nós mesmos – que podemos considerar nosso self conectado – pode ser nutrido e desenvolvido. Podemos aprofundar nosso senso de pertencimento ao mundo. Como árvores que estendem seu sistema de raízes, podemos crescer em conexões, permitindo a nós mesmos, dessa maneira, acessar um conjunto mais profundo de forças, bem como a coragem e a inteligência de que tanto precisamos neste momento. Essa dimensão da Grande Virada surge das mudanças que estão acontecendo em nosso coração, nossa mente e nossa visão da realidade. Ela envolve percepções e práticas que ressoam com tradições espirituais respeitáveis, estando, ao mesmo tempo, alinhada com os novos e revolucionários entendimentos alcançados pela ciência.

A viagem espacial da Apollo 8, em dezembro de 1968, foi um evento significativo para essa parte da história. Em razão dessa missão na Lua, e das fotos que ela produziu, a humanidade teve sua primeira observação da Terra como um todo. Vinte anos antes, o astrônomo Sir Fred Hoyle afirmou: “Assim que uma fotografia da Terra estiver disponível, uma nova ideia, tão poderosa como qualquer outra na História, vai surgir”. Bill Anders, o astronauta que tirou essas fotos, comentou: “Percorremos todo esse caminho para explorar a Lua, e a coisa mais importante que descobrimos foi a Terra”.

Estamos entre os primeiros na história humana a ter essa visão extraordinária. Ela chegou ao mesmo tempo que o desenvolvimento, na ciência, de um novo e radical entendimento de como nosso mundo funciona. Olhando para o nosso planeta como um todo, a teoria de Gaia indica que a Terra opera como um sistema vivo autorregulável.

Durante os últimos quarenta anos, essas fotos da Terra, junto com a teoria de Gaia e os desafios ambientais, provocaram o aparecimento de uma nova maneira de pensar sobre nós mesmos. Já não somos apenas cidadãos desse ou daquele país, estamos descobrindo uma identidade coletiva mais profunda. Como muitas tradições indígenas nos ensinaram por gerações, somos parte da Terra.

Uma mudança na consciência está acontecendo, à medida que vemos quem somos de maneira mais ampla. Com esse salto evolutivo, temos uma bela convergência de duas áreas que antes julgávamos colidir: ciência e espiritualidade. A percepção de que uma unidade mais profunda nos conecta está no coração de muitas tradições espirituais; conhecimentos da ciência moderna apontam para uma direção similar. Vivemos numa época em que uma nova visão da realidade está surgindo, em que percepções espirituais e descobertas científicas colaboram para o entendimento de que somos seres intimamente entrelaçados com o mundo.

Participamos dessa terceira dimensão da Grande Virada quando prestamos atenção à fronteira interna da mudança, ao desenvolvimento pessoal e espiritual que reforça nossa capacidade e nosso desejo de atuar por nosso mundo. Fortalecendo nossa compaixão, fornecemos combustível para nossa determinação e nossa coragem. Revigorando nosso senso de pertencimento ao mundo, ampliamos a rede de relacionamentos que nos alimenta e protege do esgotamento. No passado, mudar o self e mudar o mundo eram sempre vistos como esforços separados e excludentes. Mas, na história da Grande Virada, essas ações são reconhecidas como mútuas e essenciais uma à outra.


ESPERANÇA ATIVA E A HISTÓRIA DE NOSSAS VIDAS

As gerações futuras se lembrarão do tempo em que vivemos agora. O tipo de futuro de onde eles vêm e a história que contam sobre o nosso período serão modelados pelas esco-
lhas que fazemos ao longo da vida. A escolha mais reveladora de todas pode ser a história que estamos vivendo e da qual participamos. Ela configura o contexto de nossa vida de uma maneira que influencia todas as nossas outras decisões.

Ao escolher nossa história, não só lançamos nossa influência sobre o tipo de mundo que as futuras gerações irão herdar, mas também afetamos nossa própria vida, aqui e agora. Quando achamos uma boa história e nos entregamos por inteiro a ela, essa história pode agir por nós, dando um sopro de vida a tudo que fazemos. Quando nos movemos em uma direção que toca nosso coração, contribuímos para essa dinâmica de um propósito mais profundo que nos faz sentir mais vivos. Uma grande história e uma vida satisfatória compartilham um elemento vital: uma trama contundente que se move em direção a objetivos significativos, onde o que está em jogo é muito maior do que perdas e ganhos pessoais. A Grande Virada é essa história.

Capítulo Dois – Confiando na Espiral

Esperança Ativa não é um pensamento ilusório.

Esperança Ativa não é esperar ser resgatado

pelo Cavaleiro Solitário ou por algum salvador.

Esperança Ativa é despertar para a beleza da vida

em nome da qual podemos agir.

Nós pertencemos a este mundo.

A rede da vida está nos convocando neste momento.

Nós percorremos um longo caminho e estamos
aqui para fazer a nossa parte.

Com Esperança Ativa nós percebemos que há aventuras
nos aguardando,

forças a descobrir e companheiros a quem dar os braços.

Esperança Ativa é uma prontidão para se engajar.

Esperança Ativa é uma disposição para descobrir os pontos fortes

em nós mesmos e nos outros;

uma disposição para descobrir as razões para esperança e as oportunidades para amar.

Uma disposição para descobrir o tamanho e a força
dos nossos corações,

nossa rapidez de mente, nossa firmeza de propósito,

nossa própria autoridade, nosso amor pela vida,

a vivacidade da nossa curiosidade,

a fonte surpreendentemente profunda de paciência e diligência,

a agudeza dos nossos sentidos e nossa capacidade de liderar.

Nada disso pode ser descoberto em uma poltrona ou sem riscos.

A Grande Virada é uma história de Esperança Ativa. Para fazer a nossa parte da melhor maneira, precisamos nos opor às vozes que dizem que não estamos à altura da tarefa, que não somos bons o suficiente, fortes o suficiente, ou sábios o suficiente para fazermos qualquer diferença. Se temermos que a confusão em que estamos é horrível demais para olhar ou que não seremos capazes de lidar com a aflição que ela traz, precisamos encontrar um caminho que atravesse esse medo. Este capítulo descreve três fios que podemos seguir que nos ajudam a ficar de pé e a não nos retrairmos ao encarar a imensidão do que está acontecendo com o nosso mundo. Esses fios podem ser tecidos em qualquer situação como uma maneira de apoiar e fortalecer a nossa capacidade de responder. Portanto, retornaremos a eles com frequência nas páginas vindouras. O primeiro fio é a estrutura narrativa das histórias de aventuras.


SEGUINDO O FIO DA AVENTURA

Pense na Grande Virada como uma história de aventura. Histórias de aventura começam introduzindo uma ameaça sinistra que parece muito maior do que a capacidade de os personagens principais lidarem com ela. Se você sentir que suas chances são pequenas e duvidar se está à altura do desafio, então você se junta à tradicional linhagem de protagonistas desse gênero. Heróis quase sempre parecem iniciar em nítida desvantagem.

O que faz a história é a maneira pela qual os personagens centrais não se desencorajam. Em vez disso, o conto os põe em uma jornada em busca de aliados, ferramentas e sabedoria necessários para melhorar suas chances. Nós podemos pensar em nós mesmos como estando em uma jornada similar; parte da aventura da Grande Virada envolve buscar companhia, fontes de apoio, ferramentas e insights que nos ajudarão.

O que nos põe em movimento é ver o que está em jogo e nos sentirmos convocados a fazer a nossa parte. Então nós apenas seguimos o fio da aventura, desenvolvendo competências pelo caminho e descobrindo forças escondidas que se revelam apenas quando necessárias. Quando as coisas estão turbulentas ou sombrias, nós podemos nos lembrar que é comum que isto aconteça nestas histórias. Pode haver momentos em que tudo parece perdido. Isto também pode ser parte da história. Nossas escolhas em momentos desse tipo podem fazer uma diferença crucial.


O FIO DA ESPERANÇA ATIVA

Qualquer situação que enfrentamos pode se resolver de muitas maneiras diferentes — algumas muito melhores, outras muito piores. Esperança Ativa envolve se identificar com os desfechos pelos quais nós aspiramos e então desempenhar um papel ativo em fazê-los acontecer. Não ficar esperando até ter certeza do sucesso. Nós não limitamos nossas escolhas aos desfechos que parecem prováveis. Em vez disso, nós focamos no que verdadeiramente, profundamente ansiamos, e então damos passos determinados naquela direção. Este é o segundo fio que seguimos.

Nós podemos reagir às crises do mundo de muitas maneiras diferentes, com um espectro de respostas possíveis, do nosso melhor ao nosso pior. Podemos nos colocar à altura do desafio com sabedoria, coragem e cuidado, ou podemos nos contrair diante dele, escondê-lo ou desviar o olhar. Com Esperança Ativa, escolhemos conscientemente manifestar nossas melhores respostas, de maneiras que podem surpreender até a nós mesmos. Podemos nos treinar para nos tornarmos mais corajosos, inspirados e conectados? Isto nos leva ao próximo fio.


O FIO DA ESPIRAL DO TRABALHO QUE RECONECTA

A espiral do Trabalho que Reconecta é algo a que podemos voltar de novo e de novo como uma fonte de força e de novos insights. Ela nos lembra que somos maiores, mais fortes, mais profundos e mais criativos do que aprendemos a acreditar. Ela mapeia um processo de fortalecimento que viaja através de quatro movimentos sucessivos, ou estações, descritos como Partindo da Gratidão, Honrando Nossa Dor Pelo Mundo, Vendo com Novos Olhos, e Seguindo Adiante.

Quando partimos da gratidão, nós nos tornamos mais presentes à maravilha de estar vivos neste mundo incrível, às muitas dádivas que recebemos, à beleza que apreciamos. Ainda assim, o próprio ato de olhar para o que amamos e valorizamos no nosso mundo traz consigo uma consciência da vasta violação em curso, a espoliação e colapso. Partindo da gratidão, nós naturalmente fluímos para honrar a nossa dor pelo mundo.

Dedicar tempo e atenção a honrar a nossa dor pelo mundo garante que haja espaço para ouvir nossa tristeza, pesar, indignação e quaisquer outros sentimentos que se revelem em resposta ao que está acontecendo com o nosso mundo. Admitir a profundidade da nossa angústia, até para nós mesmos, nos leva rumo a um território culturalmente proibido. Desde muito pequenos, nos foi dito para nos controlarmos, para nos alegrarmos ou calarmos a boca. Ao honrar nossa dor pelo mundo, nós quebramos os tabus que silenciam nossa angústia. Quando a sirene de ativação do alarme interno não está mais abafada ou desligada, algo é ativado dentro de nós. É a nossa resposta de sobrevivência.

O termo honrar implica boas-vindas respeitosas, em reconhecermos o valor de algo. A nossa dor pelo mundo não apenas nos alerta para o perigo, mas também revela nossa dimensão profunda de cuidado. E esse cuidado deriva da nossa interconexão com toda a vida. Nós não precisamos temê-lo.

Na terceira fase, nós nos aprofundamos no giro perceptual que reconhece a nossa dor pelo mundo como uma expressão saudável do nosso pertencimento à vida. Ver com novos olhos revela a rede mais ampla de recursos disponíveis para nós por meio do nosso enraizamento em um self mais profundo, ecológico. Essa terceira fase recorre a insights da ciência holística e da sabedoria espiritual antiga, bem como em nossas imaginações criativas. Ela nos abre para uma nova visão do que é possível e uma nova compreensão do nosso poder de fazer diferença.

Para vivenciar os benefícios dessas perspectivas fortalecedoras, queremos aplicá-las à tarefa de abordar os desafios que encaramos. A estação final, Seguindo Adiante, envolve elucidar a nossa visão de como podemos agir para a cura do nosso mundo, identificando passos práticos que movem nossa visão para frente (ver Fig. 2).

A espiral oferece uma jornada transformacional que aprofunda a nossa capacidade de agir em prol da vida na Terra. Nós a chamamos de espiral e não de ciclo porque, a cada vez que nos movemos pelas quatro estações, nós as vivenciamos de modo diferente. Cada elemento nos reconecta com o nosso mundo, e cada encontro pode nos surpreender com pérolas escondidas. Na medida em que cada estação naturalmente se desdobra na próxima, um ímpeto e um fluxo se constroem, permitindo que os quatro elementos trabalhem juntos para formar um todo que é mais do que a soma de suas partes. Quando nós nos permitimos ser guiados por esta forma espiral, não somos apenas nós que estamos agindo; estamos deixando o mundo agir em nós e por meio de nós.


O TRABALHO QUE RECONECTA COMO UMA PRÁTICA PESSOAL

A espiral fornece uma estrutura à qual podemos recorrer e explorar sempre que precisarmos acessar a resiliência e a riqueza de recursos que surgem da rede mais ampla da vida. Sempre que você estiver nauseado por uma reportagem perturbadora, você pode dar um passo para a gratidão, simplesmente concentrando-se na sua respiração e agradecendo ao que quer que esteja te sustentando naquele momento. Enquanto você sente o ar entrando pelas suas narinas, agradeça pelo oxigênio, pelos seus pulmões, por tudo que te traz à vida. A pergunta, “A quem eu sou grato?” move a sua atenção para além de si mesmo, na direção daqueles de quem você recebe, daqueles que te apoiam.

Um momento de gratidão fortalece a sua capacidade de olhar para, em vez de se afastar de, informações perturbadoras. Enquanto você se permite assimilar o que quer que você veja, permita-se também sentir o que quer que você sinta. Quando você sente dor por algo além do seu próprio interesse imediato, isso revela seu cuidado, compaixão e conexão — coisas tão preciosas. Honrando a sua dor pelo mundo, em qualquer forma que ela assuma, você a leva a sério e permite que o sinal que ela carrega te desperte.

Quando você vê com novos olhos, você sabe que não é apenas você que está lidando com isto. Você é apenas uma parte de uma história muito maior, um fluxo contínuo de vida na Terra que fluiu por mais de três bilhões e meio de anos e que sobreviveu a cinco extinções em massa. Quando você adentra este fluxo mais profundo e mais forte e percebe a si mesmo como parte dele, um conjunto diferente de possibilidades emerge. Ampliar a sua visão aumenta os recursos disponíveis para você, já que, pelos mesmos canais de conexão pelos quais a dor pelo mundo flui, também fluem força, coragem, determinação renovada e a ajuda de aliados.

Com o giro de percepção que é trazido por ver com novos olhos, você pode soltar a sensação de que você precisa dar conta de tudo. Em vez disso, você se concentra em descobrir o seu papel e cumpri-lo, oferecer a sua dádiva de Esperança Ativa, sua melhor contribuição para a cura do nosso mundo. Ao seguir adiante, você considera o que isto pode ser, e qual será o seu próximo passo. Então você dá esse passo.

O que nós descrevemos aqui é uma forma breve da espiral, que pode ser caminhada em apenas alguns minutos. Como um fractal que tem a mesma forma característica em qualquer escala em que é visto, a forma da espiral pode ser aplicada a um amplo espectro de enquadramentos temporais, com rotações acontecendo ao longo de minutos, horas, dias ou semanas. Nós nos movemos pelas quatro estações de uma maneira que apoia a nossa intenção de agir em prol da vida na Terra. Quanto mais você se familiariza com esta jornada fortalecedora, mais você pode confiar no processo de estrutura espiral. Cada uma dessas estações contém profundezas escondidas, rico significado e tesouros a explorar. É para elas que nos voltamos nos próximos capítulos.

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