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por Cristina Lobato

Sou neta, sou filha, sou irmã também. Sou tia, prima e cunhada. São diversos os papéis pelos quais transito nas relações familiares.

E, qual a importância de perceber isso?

Saber que em cada relação minhas interações são diferentes: são diversas as questões de afetos, cuidado, autoridade, poder, memórias e histórias que temperam a maneira como me expresso com cada pessoa. Todavia, minha autoexpressão não é estática: ela é dinâmica, é uma dança que varia com os meus ritmos e com os de cada pessoa. 

Há momentos em que, nessas relações mais íntimas, vivenciamos nossos maiores desafios e acessamos nossas mais temidas sombras. 

Como lidar com isso? 

Um caminho potente para o fortalecimento pessoal é a Comunicação Não-Violenta (CNV) como linguagem autêntica com empatia.

Por meio da prática da autoempatia é possível oferecermos empatia às pessoas que convivemos e, consequentemente, impactar mudanças no sistema familiar.  

Quer experimentar? 

Uma maneira de olhar para isso é a seguinte:

1º. Pense em algo que você fez ou disse para alguém da sua família que, pensando melhor agora, não gostaria de ter feito ou dito.

2º. Que pensamentos vieram a sua mente sobre você mesmo(a) neste momento? Julgamentos, avaliações, críticas…

3º. Quais eram suas preocupações quando agiu daquela maneira ou falou aquilo? Reconheça o que é importante para você, suas necessidades, seus valores, seus porquês. 

4º. Como você está se sentindo ao ter identificado essas necessidades?

5º. Pense agora no que você queria cuidar quando agiu como agiu ou disse o que disse.

6º. Como se sente agora tendo reconhecido o que é igualmente importante para você? **

Gostaria de trazer um exemplo pessoal, recente:

Outro dia eu estava com meu sobrinho de 5 anos, brincando na casa dele. Já era tarde e eu queria descansar, então pedi a ele para arrumarmos, juntos, os brinquedos que estavam espalhados no chão. Ele se recusou e aí eu disse: “Se você continuar fazendo isso, eu vou embora”.

Um pouquinho depois eu fiquei me julgando de chantagista, autoritária e de ter jogado sujo com o sentimento da criança, pois descuidei do carinho, da coerência e da clareza quanto à mensagem que queria passar. 

Ao identificar isso me sinto arrependida, frustrada e envergonhada. Eu queria cuidar da ordem e da beleza, ter apoio e descansar.

Neste momento, reconhecendo as necessidades que eu quis atender ao falar daquela forma, me sinto leve e motivada para pensar em quais outras estratégias posso adotar para cuidar dessas necessidades, sendo clara, coerente e carinhosa com meu sobrinho. 

Talvez eu pudesse ter explicado a ele como eu estava cansada e que precisava do apoio dele para arrumarmos o ambiente.

Este foco nos sentimentos e nas necessidades é o convite que a Comunicação Não-Violenta nos faz. 

Você já ouviu falar nisso?

Marshall Rosenberg, psicólogo nascido nos EUA, sistematizou nos anos 60/70 a CNV por meio de sua experiência de vida e do desejo de investigar sobre as causas da violência. 

Sua trajetória pessoal inclui a origem como um judeu lidando com a violência que sofria no bairro de Detroit, das práticas com a Abordagem Centrada na Pessoa sistematizadas por Carl Rogers, de ter sido orientador educacional em escolas e universidades que abandonavam a segregação racial e de, também, ter atuado como taxista.

Hoje a CNV está sendo praticada em diversos contextos, desde o âmbito pessoal até o organizacional, como linguagem que inclui uma expressão autêntica com empatia.



Cristina Lobato é autora do livro Ciranda do SER e integrante do Coletivo Escutar.



**Esse exercício é um adaptação da atividade prevista no Livro “A linguagem de paz em tempos de conflito” por Marshall Rosenberg.

 

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